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        SAMPA E SUAS GAROAS

         João e Pedro se encontraram mais uma vez em Sampa. E sob os seus olhares a rua se alongava para cima e para baixo, e de um lado e do outro as pessoas subiam e desciam. Andavam em grupos e tagarelavam juntas. Vez por outra, casais desfilavam suas paixões. Eram todos falantes, gesticulavam e produziam uma coreografia urbana, noturna e de rua. Aqui e ali se agrupavam, faziam arrumações de tribos. Havia uma necessidade coletiva daquilo, expressada por cada olhar e pela fumaça que suavemente escapava entre os lábios buscando uma liberdade.

     Mais acima, quase no final do olhar de ambos, cruzava a Paulista. A Augusta cedia à sua imponente passagem. Era necessária e natural aquela interseção. E o obelisco monetário na esquina aceitava o desfile da poesia. E ao longo daquela imagem tão metropolitana um rock singer avulso, por um instante, paralisava os transeuntes. A voz rouca e o jeito epiléptico de dançar trazia Elvis para o início daquela noite. E ao lado, apesar dos dezenove graus, um vira-lata protegido por uma camisa surrada de lã, teimava em brincar com um siberiano que ligeiramente era arrastado pela bela moça fitness que fazia seu cooper noturno.

     Um pouco depois do restaurante de comida mexicana havia um beco. Na verdade, uma viela. Alguns food trucks estavam ali estacionados há muito tempo. Pelo aspecto dos pneus e na forma que estavam parados, agora eles já não eram pontos móveis. Por algum motivo tinham escolhido aquele local para se plantarem. Outro truck virou uma cervejaria. Suas torneiras sobre o balcão eram o deleite da degustação. Todas cervejas artesanais. Cor e teor alcoólico variados e às vezes um delicioso aroma cítrico. Destacava-se o de maracujá. Ficaram ali por um tempo. Lá no final daquele espaço havia um pub que logo chamou a atenção deles. E por fora, na lateral do bar uma escada dava acesso a um pequeno terraço com quatro mesas. Por ali ficaram por mais alguns minutos e curtiram um painel grafitado na parede. Aquelas lembranças de Raul, Cazuza e Tim Maia faziam bem à noite.

     Ao saírem da viela passaram por um grupo de jovens, todos felizes. Uma garota sorria e dançava um funk, alegremente. Os movimentos eram discretos, sensuais. Vez por outra aceitava uma tragada no narguilé e o bocal continuava a percorrer a mesa de mãos em mãos. E o clima de festa, azaração e descontração era geral.

     Quando ainda andavam levemente na rua, pelo passeio e asfalto, a imagem de um homem deitado no chão roubou-lhes a atenção. Era alguém que no seu anonimato de vida, solenemente amanhecia dormindo na Augusta. Encenava um sono como se estivesse em uma Big king. Braços sob a cabeça, em uma posição destemida ou esquecida que expunha toda a sua vulnerabilidade. O cobertor curto cobria o seu tórax, mas deixava ao frio e à garoa seus pés sem meias, sem nada. Exceto por um lodo incrustado na sua pele, não havia proteção alguma. E ele se incorporava à calcada naquele verde musgo e no lodo que lhe protegia. E os papelões de variados formatos e espessuras, algumas partes já molhadas pelo sereno, de alguma forma lhe fazia adormecer. E aquelas caixas desmanchadas que agora guardavam um corpo ainda mantinham o aviso: cuidado! Frágil! Chamado esse, grafado em vermelho, que era parcialmente visto por debaixo do Dorme Bem. Era como se o alerta fizesse com que as pessoas se desviassem do caminho para evitar aquele desencontro. Por algum motivo aquele cenário jamais sairia das suas retinas.

(Imagem:web)
Rosalvo Abreu
Enviado por Rosalvo Abreu em 30/09/2018
Alterado em 01/10/2018
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