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O INCRÍVEL OBJETO DE CHAPECÓ

     Estavam as pessoas ali paralisadas, olhando através dos vidros. Era um olhar de admiração e de perguntas. Ele lá no pátio, estático. Preso pela gravidade. Tinha vários deles. Não podiam fugir da sua forma. As leis da física os escravizaram naquele tipo de ser. Sempre cilindriformes com suas asas eternamente abertas. Na sua quase totalidade eram sempre brancos. Talvez aquela cor tivesse uma razão. Minúsculos homens trabalham ao seu lado. Movimentos rápidos, decididos e treinados. Inspeções, checagens e combustível era a rotina. Outros colocavam malas, caixas, bagagens. Todas organizadas, ora pelo tamanho, forma ou peso. Lá fora na garoa, no frio, na noite ou no dia a cena se repetia.

     Cá dentro, outros na fila, atentos. Silenciosamente caminham. Palavras curtas, atenção. Bilhete à mão e identidade. Inspeção. Às vezes tira- se os sapatos, cintos. Tudo aquilo é necessário. Todo aquele cuidado e ele lá fora aguardando, parado, pesado, preso ao chão. Este ritual de respeito e preparo justifica a admiração daqueles que silenciosamente o observa através da vidraça. Aos poucos a saudade vai ocupando lugar. Esperança e expectativa se misturam. O tempo agora é a razão da espera, da ida e da chegada. Talvez este seja o seu fascínio. Vencer o tempo. Com ele podemos acelerar o momento ou voltar no tempo. Então, não é mais o tempo preso em mim é o tempo do meridiano.

     Todo o ritual simboliza o respeito. Aquelas pessoas igualmente uniformizadas, arrastando suas malas também padronizadas, agora já estão nele. No objeto cilindriforme, pesado, parado lá fora. Nos seus rituais treinados, incorporados eles vão checando. Confere alimentos, também padronizados. Olham os gráficos no mapa, conferem os painéis, os níveis, as informações, os números. Tudo precisamente detalhado e revisado. Informa-se ao controle e os procedimentos continuam. Solenes conferem a chegada de todos. Corteses, seguros, simpáticos com sorrisos aliviam o medo. De forma organizada, cadenciada todos se ajeitam e encontram seus lugares. Aos poucos através das instruções e dos protocolos se entregam àquele objeto.

     Agora, os apêndices já se desprenderam, as entradas e saídas foram hermeticamente fechadas e sua forma se completa. Vagarosamente ele será conduzido ao início do seu desafio. O deixar ser conduzido, não por impossibilidade, mas por humildade diante do seu poder o faz ainda mais grandioso. Neste instante o controle é total, contatos e autorizações. O seu poder o levará à liberdade. O esforço será enorme para livrar-se do cordão que o prende a gravidade e ao movimento de rotação. No espaço encontrará o seu destino.

     O desejo da conquista me faz flutuar. Vou contra o tempo em busca do meu destino. Flutuo veloz, camuflado entre as nuvens. Lembro a canção: “Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos aprendi a ser o último a sair do avião”. Lá embaixo meu sonho, minha vocação. Neste momento lá fora é muito frio. E diante do impensável imprevisto angustio-me. Retorno à posição fetal. Quero novamente a segurança e a suavidade da entranha feminina. Apesar da agitação meu silêncio é duro. Rápido. Entro de novo em movimento universal.

 
Rosalvo Abreu
Enviado por Rosalvo Abreu em 01/12/2016
Alterado em 01/12/2016
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